Há coisas que me fazem pensar. Coisas como aquelas frases que nós usamos no dia-a-dia, na rotina, como “Vai-se andando” ou “Está tudo bem contigo?” ou a que a minha mãe frequentemente usa comigo “faz-te à vida”.
“Está tudo bem contigo”? Definam tudo. Eu realmente tenho as minhas dúvidas que alguém, algum dia, me diga “epá, tenho um testículo maior que o outro” ou “ando com um ardor no ânus porque, provavelmente, não me limpei bem”. Ninguém diz isso. E essas são as pessoas que respondem sempre “Sim, comigo está tudo bem, e contigo?”. Vá lá uma pessoa entender esta gente. Quando alguém me diz “vou andando” eu temo sempre abrir a boca, porque afinal de contas a primeira pergunta que me assola a mente é qual será o destino dessa caminhada. E sei que nunca ninguém me irá responder.
Já quando a minha mãe me diz “faz-te à vida” eu pergunto-me se uma mãe muçulmana de um trabalhador do HAMAS diria o mesmo ao filho. Eu acho que sim. Afinal no caso dele, “fazer-se à vida” significa fogos de artificio colectivo no meio da rua, com o bónus de ter 70 mulheres (virgens não existem, é mito) à espera dele no céu. Já comigo não sei o que significa “fazer-me à vida”. Fazer uma vida sei, e não acho que seja difícil, mas não me parece que seja isso que a minha mãe quer.